
Aquele dia era como qualquer outro. Eu voltava de mais um rolê com alguns amigos quando, de repente, o passado resolveu atravessar a rua: meu crush da época da escola.
Eu, idiota, mas Idiota MESMO . Falei o nome dele em voz alta, como se o universo estivesse surdo. Ele virou o rosto. Não sei se me viu e fingiu que não viu, se não viu de verdade ou se viu, reconheceu e escolheu o esporte favorito dos adultos: fingir demência.
Provavelmente, ele só me ignorou. E tudo bem.. Aquilo, porém, abriu uma gaveta que eu não visitava havia anos. A do passado que insiste em dizer “oi” justamente quando a gente acha que já mudou o suficiente para não ser reconhecida por ele.
Como mudamos. Como amadurecemos. Ou pelo menos fingimos melhor. Na época em que eu gostava daquele menino, eu era uma criança idiota e confesso, não muito diferente da adulta meio retardada que sou hoje. A diferença é que hoje eu sei que sou. Naquela época, não.
Às vezes penso que, se eu tivesse a maturidade que acho que tenho agora, tudo teria sido diferente. Eu teria dito menos bobagem, sofrido menos, me poupado mais. Mas logo penso o contrário: eu não estaria aqui. Não seria quem sou. Porque foi justamente a falta de maturidade, os erros, as mancadas, às vezes em que fui feita de boba, e as muitas em que nem precisei de ajuda, eu mesma me fiz, que me trouxeram até aqui.
A gente cresce assim: se iludindo, entendendo errado, apostando em certezas que nunca existiram. São esses detalhes banais da vida que nos empurram para frente. Sem eles, ainda seríamos aquelas crianças problemáticas, só um pouco mais altas (ou no meu caso com o mesmo tamanho que eu tinha aos 10 anos) e com boletos para pagar.
Pensar no passado e nos “e se” da vida às vezes abre feridas. Mas, na maioria das vezes, traz respostas. Soluções que a gente nem sabia que precisava. E talvez seja só isso: o passado não aparece para nos prender, mas para lembrar que, apesar de tudo, a gente seguiu andando.






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