Resenha: Rádio Silêncio de Alice Oseman

Confesso que pensei bastante antes de escrever esta resenha. Gosto de usar este espaço para falar sobre livros que realmente me marcaram, que me encantaram ou que, de alguma maneira, fizeram sentido para mim. E Rádio Silêncio, de Alice Oseman, definitivamente não entrou nessa categoria.

Não diria que odiei o livro, pois talvez essa seja uma palavra forte demais, mas posso dizer tranquilamente que ele não me encantou. E talvez parte dessa experiência tenha acontecido justamente porque eu não sou o público-alvo da obra.

Rádio Silêncio foi escrito por Alice Oseman, autora também de Heartstopper, obra que ganhou enorme popularidade tanto nos livros quanto na adaptação para a Netflix.

O livro faz parte do universo de Oseman e apresenta personagens e situações que conversam com outras obras da autora. Como nunca li nem assisti a Heartstopper, ou a nenhum outro livro da autora, minha experiência com Rádio Silêncio foi completamente independente dessas outras histórias. Portanto, não consigo avaliar possíveis conexões ou referências pensando no universo expandido como um todo.

Portanto, nessa resenha, focarei apenas o que é mostrado no livro Rádio Silêncio.

A história acompanha Frances, uma adolescente aparentemente perfeita. Na escola, ela é uma aluna exemplar, representante de turma e completamente focada em conseguir uma vaga na universidade dos seus sonhos, Cambridge.

Mas existe uma outra Frances escondida por trás dessa imagem de estudante perfeita. Na internet, ela é conhecida como Turlone, uma desenhista do Tumblr e grande fã do podcast Rádio Silêncio.

Sua vida começa a mudar quando ela se aproxima de Aled, seu vizinho e irmão gêmeo de Carys, uma antiga colega de Frances que fugiu de casa.É a partir dessa amizade que Frances começa a descobrir que existe muito mais acontecendo ao seu redor do que aquilo que ela imaginava.

Embora, no livro, Frances seja a narradora e, teoricamente, a protagonista, senti que a história acaba se afastando bastante dela. Pois, grande parte da trama gira em torno da amizade entre Frances e Aled e, principalmente, dos mistérios envolvendo Carys e sua família. Inclusive, a relação entre os irmãos gêmeos e a mãe, Carol, acaba se tornando um dos elementos mais importantes e, para mim, também o mais interessante de toda a narrativa.

Frances, por outro lado, parece estar sempre um pouco à margem. Pois, ela passa boa parte da história preocupada com a escola, com seu desempenho acadêmico e com a expectativa de entrar em Cambridge. Paralelamente, existe também uma questão importante relacionada à sua sexualidade. Já que Frances sente atração por meninas e teve um envolvimento com Carys antes do desaparecimento dela.

Para mim, esse acontecimento poderia ser um dos grandes conflitos internos da personagem, especialmente considerando sua idade e o processo de descoberta da própria identidade. No entanto, senti que essa questão acaba ficando em segundo plano diante dos outros acontecimentos.

E foi justamente aí que tive um dos meus maiores problemas com o livro: eu esperava conhecer mais profundamente Frances, seus sentimentos, suas inseguranças e suas contradições, mas acabei muito mais interessada na história de Aled e Carys.

O principal problema que tive com Rádio Silêncio foi justamente a construção da protagonista. Pois acredito que Frances é uma personagem que tinha muito potencial. Já que temos uma adolescente que tenta corresponder perfeitamente às expectativas da escola, da família e dela mesma, enquanto mantém uma identidade completamente diferente na internet. Portanto, para mim, essa dualidade poderia render conflitos muito interessantes, mas acredito que isso não foi desenvolvido de maneira suficientemente envolvente.

Seus conflitos escolares também não conseguiram me conquistar. Em determinados momentos, tive a sensação de estar acompanhando uma personagem preocupada com questões muito específicas de uma realidade adolescente privilegiada — a pressão para entrar em uma universidade de prestígio, por exemplo — enquanto outros conflitos potencialmente mais profundos ficavam em segundo plano.

E aqui entra uma ressalva importante: Frances é uma personagem negra, então não estou dizendo que a personagem não tenha questões relacionadas à sua identidade ou experiência. O que me incomodou foi a forma como, dentro da narrativa, algumas questões que poderiam ser emocionalmente mais complexas parecem perder espaço para o conflito acadêmico.

Além disso, os diálogos foram outro ponto que me incomodou bastante. Pois, em vários momentos, achei as conversas artificiais e pouco interessantes, com trocas muito curtas que não contribuíam para aprofundar os personagens. Eu me pegava pensando que determinados diálogos poderiam ter sido mais elaborados ou carregados de emoção.

Por outro lado, preciso reconhecer que o livro melhora consideravelmente quando a história começa a se aprofundar na relação entre Aled, Carys e Carol. Foi nessa parte que finalmente senti que a narrativa ganhou força.

A dinâmica familiar dos irmãos, o relacionamento complicado com a mãe e tudo aquilo que envolve a fuga de Carys são, para mim, os elementos mais interessantes da obra. Curiosamente, justamente quando a história se distancia de Frances, foi quando eu fiquei mais envolvida.

E isso é bastante significativo para a minha experiência de leitura: terminei o livro querendo saber muito mais sobre Aled e Carys do que sobre a própria protagonista.

Apesar das minhas críticas, consigo entender por que Rádio Silêncio pode funcionar muito bem para um público adolescente. A obra aborda amizade, identidade, sexualidade, expectativas familiares, pressão escolar e o processo de descobrir quem somos enquanto tentamos entender o mundo ao nosso redor.

Talvez eu simplesmente não tenha encontrado nessa história aquilo que precisava encontrar como leitora. Por isso, no fim das contas, Rádio Silêncio foi uma leitura que não funcionou muito bem para mim.

Entretanto, não acho que seja necessariamente um livro ruim. Pelo contrário: consigo enxergar seus méritos e entender por que ele pode conversar profundamente com adolescentes que estejam passando por um processo semelhante de descoberta e questionamento.

O problema é que, para mim, a protagonista não conseguiu sustentar o peso da própria história. Frances deveria ser o centro da narrativa, mas muitas vezes me pareceu coadjuvante da história de Aled e Carys. E quando terminei o livro, minha maior vontade era continuar acompanhando justamente esses dois personagens.

Então, se eu pudesse escolher, provavelmente deixaria Frances para trás e seguiria lendo uma história sobre os irmãos gêmeos. Minha experiência com Rádio Silêncio foi, portanto, bastante morna. Não me arrependo de ter lido, porque a história trouxe algumas reflexões interessantes e personagens que despertaram minha curiosidade, mas definitivamente não foi uma leitura que me conquistou.

É uma obra que pode funcionar muito bem para leitores mais jovens que estejam vivendo suas próprias descobertas, mas, para mim, faltou profundidade na protagonista e força em alguns aspectos da narrativa para que a história realmente me encantasse.


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