Resenha: Oração para desaparecer de Socorro Acioli

Este foi meu primeiro contato com a escrita de Socorro Acioli. Meu plano inicial era ler A cabeça do santo, uma de suas obras mais conhecidas, mas Oração para Desaparecer acabou sendo o livro escolhido para a leitura do meu clube do livro. E foi assim que finalmente conheci a escrita da autora.

Antes de começar a leitura, também tive uma experiência interessante com o acesso à obra. Encontrei o livro por cerca de R$ 30 para leitura no Kindle, mas descobri que ele estava disponível gratuitamente pelo MEC Livros. Como gosto de aproveitar oportunidades para conhecer novos autores sem necessariamente comprar todos os títulos que despertam minha curiosidade, optei pela versão gratuita. A principal limitação é que, pelo MEC Livros, a leitura precisa ser feita pelo celular ou tablet, sem a possibilidade de enviar o arquivo para o Kindle.

Mas, deixando essa experiência de lado, vamos ao que realmente importa: a história.

Confesso que gostaria de ter gostado mais de Oração para Desaparecer. A premissa despertou minha curiosidade, e a obra tem elementos que considero muito interessantes na literatura brasileira contemporânea. Entretanto, minha experiência com a leitura não foi tão envolvente quanto eu esperava. E é justamente sobre essa mistura de interesse, reflexão e certa frustração que quero conversar nesta resenha.

Oração para Desaparecer acompanha Aparecida, uma mulher que é encontrada em Portugal sem conseguir se lembrar da própria história. Ela sabe que é brasileira, mas não consegue recuperar as lembranças de quem era, de onde veio e de tudo o que viveu antes de chegar àquele lugar.

Aparecida é um ressurrectos: alguém que estava à beira da morte e reaparece em outro lugar, como se tivesse recebido uma nova oportunidade de existir. Entretanto, diferentemente de outros ressurectos, ela não consegue se recordar de seu passado.

A narrativa começa com Aparecida contando sua história a um homem misterioso, que trabalha proporcionando novas vidas às pessoas. Sem conseguir se lembrar da vida que teve, ela precisa construir uma nova história para si mesma, tentando compreender a própria existência a partir dos fragmentos que ainda possui.

Aos poucos, a narrativa nos conduz de Portugal ao Brasil, mais especificamente a Almofala, uma cidade do Ceará ligada às origens da protagonista. É nesse percurso que a obra explora questões relacionadas à memória, à identidade, às raízes e à maneira como as histórias individuais se conectam à história de um povo.

A autora mistura elementos fantásticos com aspectos da realidade brasileira, construindo uma narrativa na qual o extraordinário convive com o cotidiano. Também encontramos manifestações da diversidade religiosa e cultural do Brasil, especialmente das tradições e crenças presentes no Nordeste.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção em Oração para Desaparecer foi a maneira como a obra trabalha a ideia de identidade. Afinal, quem somos quando não conseguimos nos lembrar de nossa própria história? Quanto da nossa identidade está ligado ao nome que recebemos, ao lugar onde nascemos e às pessoas que fizeram parte da nossa vida?

A situação de Aparecida torna essas perguntas ainda mais interessantes. Ela precisa reconstruir a própria existência sem ter acesso às lembranças que, normalmente, usamos para explicar quem somos. A personagem não está apenas tentando descobrir o que aconteceu com ela: também precisa compreender quem pode ser a partir daquele momento.

Essa proposta me fez pensar em como a nossa história pessoal é construída por tantas coisas que, às vezes, consideramos pequenas. O lugar de onde viemos, as pessoas que caminham ao nosso lado, as relações que estabelecemos e até o nome que carregamos participam da maneira como nos reconhecemos no mundo.

Outro aspecto que me chamou a atenção foi a presença do realismo fantástico (ou mágico). Na minha experiência, a obra se aproxima dessa tradição literária ao misturar acontecimentos extraordinários com situações e referências profundamente enraizadas na realidade brasileira. O fantástico não aparece completamente separado da vida cotidiana: ele faz parte do universo cultural apresentado pela narrativa.

Nesse sentido, o livro me lembrou bastante Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. Inclusive durante a leitura, tive a sensação de estar entrando novamente em um universo literário no qual a relação com a terra, as tradições, a ancestralidade e os encantados tem um papel importante na maneira de compreender a realidade.

Não considero que as duas obras sejam iguais, mas a comparação surgiu espontaneamente para mim, principalmente pela forma como elementos que ultrapassam o mundo material convivem com questões sociais e culturais muito concretas. Foi uma associação que tornou minha experiência com o livro ainda mais interessante.

Também gostei de perceber como a narrativa abre espaço para a diversidade religiosa e para o sincretismo presente em diferentes manifestações da cultura brasileira. Em especial, o contexto nordestino apresentado na obra reforça a importância de compreender o imaginário popular sem separá-lo da história e das experiências das pessoas que o mantêm vivo.

Apesar desses aspectos, minha experiência de leitura teve algumas dificuldades. Embora a premissa seja instigante e existam temas que renderiam muitas discussões, senti que a leitura avançou de maneira um pouco arrastada. A história não conseguiu me envolver emocionalmente na intensidade que eu esperava, e isso fez com que minha experiência fosse menos marcante do que poderia ter sido.

Além disso, acredito que existe uma diferença entre reconhecer as qualidades de uma obra e, de fato, se conectar com ela durante a leitura. Por isso, consigo perceber as questões que Oração para Desaparecer propõe e os caminhos interessantes que a autora explora, mas isso não significa que a narrativa tenha funcionado tão bem para mim.

Talvez minhas expectativas também tenham influenciado essa experiência. Como queria conhecer a escrita de Socorro Acioli havia algum tempo, comecei o livro com curiosidade e vontade de encontrar uma história que me conquistasse. Mas, ao terminar, fiquei com a sensação de que havia encontrado ideias interessantes, mas não a experiência literária que esperava.

Oração para Desaparecer foi uma leitura que me despertou reflexões importantes sobre identidade, memória, pertencimento e as relações que construímos ao longo da vida. Também me permitiu conhecer um pouco mais da escrita de Socorro Acioli e entrar em contato com uma narrativa que valoriza elementos da cultura e do imaginário brasileiro.

Apesar disso, não foi uma leitura que me conquistou completamente. Senti o ritmo um pouco arrastado e gostaria de ter me envolvido mais com a história e com a protagonista. Ainda assim, não considero que isso apague os temas interessantes que a obra apresenta.

Com 208 páginas, é um livro relativamente curto, que pode render boas conversas e reflexões, especialmente para quem gosta de narrativas que misturam realidade e fantasia e exploram as raízes culturais brasileiras.

Por fim, saio dessa leitura com a sensação de que valeu a pena conhecer a obra, ainda que ela não tenha se tornado uma das minhas favoritas. E sigo com vontade de ler A cabeça do santo, para descobrir se outra história de Socorro Acioli vai me conquistar de uma maneira diferente.


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