Resenha: Enquanto não existe o tempo, de Osara Dias

Existem livros que conseguimos resumir facilmente em uma palavra. Enquanto não existe o tempo, porém, não é um deles. Se eu precisasse escolher apenas uma palavra para descrevê-lo, talvez dissesse “sensual”. Mas calma! Não estou falando de sensualidade no sentido sexual. O livro não tem cenas hot e não é esse o caminho que a história segue. É simplesmente aquela sensação difícil de explicar que algumas narrativas provocam e que, neste caso, só consigo definir como sensual.

E, sinceramente? Não me pergunte exatamente o porquê. Eu provavelmente não saberia explicar. Você vai precisar ler o livro e depois me contar se entendeu o que eu quis dizer!

Enquanto não existe o tempo é o primeiro livro da autora gaúcha Osara e, para uma estreia, preciso dizer: ela começou muito bem. A escrita é um dos grandes destaques da obra. O livro é extremamente detalhado, e é perceptível o cuidado colocado na construção de cada elemento da história. Em alguns momentos, são tantos detalhes e tantas informações que você pode até se sentir um pouco perdido, mas existe propósito nessa construção tão detalhada.

Começando pela premissa do livro que já é bastante diferente.

Uma cientista realiza uma experiência que acaba parando o tempo. De repente, todas as pessoas ficam congeladas, como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir naquele instante.

Bem, quase todas…. Se é que podemos chamá-las de “pessoas”..

Nesse mundo parado, encontramos Exis, a Existência, e Vaz, o Vazio. São praticamente os dois personagens que conduzem toda a narrativa, e é justamente a dinâmica entre eles que movimenta grande parte da história.

Também existem Kairós e Verus, personagens importantes para compreender aquele universo, mas não quero entregar muito sobre eles. É muito mais interessante descobrir essas figuras conforme a leitura avança.

Exis recebe de Kairós a missão de encontrar o relógio utilizado pela cientista para interromper o tempo. O problema é que VAZ fará de tudo para impedir que isso aconteça.E existe uma razão muito importante para isso.

Se o tempo voltar a funcionar normalmente, Vaz acredita que ela morrerá. Afinal, ela é o Vazio e, em um mundo onde o tempo volta a existir, sua própria existência fica ameaçada.

Começa, então, uma verdadeira guerra entre Exis e Vaz.

Os dois passam a procurar o bendito relógio enquanto roubam e destroem todos os outros relógios que encontram naquele mundo congelado. É uma disputa constante entre a Existência e o Vazio — e, no meio disso tudo, uma relação começa a se transformar.

Um enemies to lovers realmente enemies to lovers

E aqui precisamos conversar sobre uma das minhas partes favoritas: o enemies to lovers.

Porque eles são inimigos mesmo!Não é aquele “somos inimigos porque o roteiro precisa que sejamos e, três páginas depois, já estamos apaixonados”. Não. A oposição entre Exis e Vaz faz parte da própria essência dos personagens e daquilo que está em jogo.

Eles possuem objetivos incompatíveis e estão literalmente lutando por aquilo que determina a sobrevivência de um deles.Por isso, quando a relação começa a mudar, a transformação se torna ainda mais interessante.

E quando eles finalmente passam da fase enemies para a fase lovers… bom, aí o livro fica muito divertido.

É justamente nessa parte que volto para a palavra “sensual” que usei no começo. Não existe hot, mas existe uma tensão entre os personagens que funciona muito bem. É aquela sensação de acompanhar duas pessoas que passaram tanto tempo se enfrentando e, de repente, começam a enxergar uma à outra de maneira diferente.

E preciso dizer: para quem ama um enemies to lovers, esse livro é um prato cheio.

É enemies BEM enemies.

E, quando chega o lovers, é lovers BEM lovers. Hahaha.

O cristianismo do livro

Outro aspecto que chamou bastante a minha atenção foram as referências cristãs presentes na história.Elas não estão necessariamente ali de maneira explícita, explicando ao leitor exatamente o que ele deve compreender. Pelo contrário: muitas referências podem passar despercebidas se você estiver simplesmente correndo pela história.

Por isso, acredito que esse é um livro que merece ser lido com calma.

É uma daquelas obras em que vale a pena apreciar as palavras, observar os detalhes e tentar compreender as diferentes camadas da narrativa. Algumas ideias e elementos do universo criado pela autora também acabam nos fazendo reconhecer certas coisas desordenadas da nossa própria realidade. E talvez seja justamente aí que esteja uma das forças da fantasia: criar um mundo completamente diferente para, de alguma maneira, falar sobre a nossa realidade.

Também preciso destacar a construção desse universo. Pois, Enquanto não existe o tempo apresenta uma proposta bastante diferente, misturando fantasia, conceitos abstratos, referências cristãs e um romance que nasce de uma relação de verdadeira oposição.É uma combinação ousada e, na minha opinião, funcionou muito bem.

E por fim, preciso parabenizar a Osara porque, mesmo sendo seu primeiro livro, ela demonstra um cuidado enorme com a escrita e com a construção da história. É uma estreia que mostra bastante potencial e me deixa curiosa para descobrir o que ela ainda vai escrever daqui para frente.

Então, se você procura uma fantasia diferente, com uma construção de mundo original, personagens que realmente começam em lados opostos e uma relação que vai se transformando aos poucos, vale a pena dar uma chance ao livro.

Só faça um favor a si mesmo: não leia correndo. Mas aprecie os detalhes, observe as referências e deixe a história acontecer no ritmo dela.

E, depois, volte aqui para me explicar por que eu achei esse livro “sensual” mesmo sem ter absolutamente nada de hot. 😂


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Uma resposta a “Resenha: Enquanto não existe o tempo, de Osara Dias”

  1. Avatar de Osara dias
    Osara dias

    Sendo a autora eu entendi perfeitamente o seu “sensual”! Não é nada erótico ou sexual, só a constatação de que a história é sobre “paixões” no sentido teológico católico da palavra 🤭

    É sobre os movimentos que inclinam uma pessoa a agir (ou não) em função de algo. Os sentimentos, vontades, escolhas. Nem todos virtuosos, nem todos ordenados, mas, no devido tempo, tocados por Deus. Que resenha belíssima, Grazi! Amei sua visão da história 🖤

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